O novo cenário de risco no Brasil
O Brasil enfrenta uma escalada crítica na ocorrência de incêndios florestais. Em 2024, o país bateu recordes históricos: foram 30 milhões de hectares queimados, segundo dados do MapBiomas, o equivalente a 62% acima da média dos últimos 20 anos. As emissões de CO₂ triplicaram, alcançando 718 MtCO₂, colocando o Brasil como um dos maiores emissores globais por fogo.
Os riscos emergentes apresentam características únicas que exigem habilidades especializadas para sua gestão eficaz. Incêndios florestais, um exemplo de risco emergente, são incêndios não planejados que ocorrem em áreas naturais e são caracterizados por sua imprevisibilidade e rápida propagação. Fatores como vegetação disponível, condições climáticas e topografia influenciam seu comportamento e gravidade.
As mudanças climáticas têm exacerbado os ciclos climáticos, aumentando a frequência e intensidade dos incêndios florestais. Além disso, incêndios podem ser iniciados por causas naturais ou humanas, e suas exposições variam significativamente de ano para ano. Compreender esses riscos e implementar medidas de prevenção eficazes é crucial para mitigar suas consequências.
A Allianz Commercial, com sua expertise global em Consultoria de Riscos e Prevenção de Perdas, apresenta este guia com medidas práticas para reduzir a exposição a incêndios florestais, alinhado às boas práticas internacionais e às especificidades do território brasileiro.
Entendendo os riscos no contexto brasileiro
Causas e impactos:
Os incêndios florestais representam riscos significativos, incluindo danos à propriedade, interrupção de negócios, lesões corporais e danos ambientais. Eles podem causar destruição direta a edifícios e equipamentos, além de forçar o fechamento temporário de empresas, impactando receitas e operações. As lesões e fatalidades resultantes do fogo e da exposição à fumaça são preocupações de saúde pública, enquanto os danos ambientais incluem poluição do ar e da água, perda de vegetação e biodiversidade, e modificação de habitats. Custos de supressão de incêndios são elevados e podem resultar em responsabilidades legais. A proximidade de vegetação seca e condições climáticas favoráveis aumentam o risco de incêndios, enquanto a regulação intensificada exige que empresas adotem planos de gestão de incêndios detalhados. Compreender e mitigar esses riscos é essencial para proteger vidas, propriedades e o meio ambiente.
Setores mais expostos:
Energia e Utilities: Instalações de geração de energia são particularmente vulneráveis, enfrentando riscos de danos físicos e interrupções operacionais que podem levar a apagões e reparos dispendiosos. Linhas de transmissão e distribuição de eletricidade em áreas rurais e interfaces urbano-florestais são preocupações específicas, tanto por desencadear incêndios quanto por serem danificadas por eles. Impactos ambientais incluem deterioração da qualidade do ar e contaminação da água, afetando a saúde humana e equipamentos sensíveis. Os riscos financeiros e legais são significativos, com altos custos de reparo e desafios de conformidade regulatória. Instalações de energia renovável, como fazendas solares e eólicas, também estão em risco, especialmente sistemas de armazenamento de energia por bateria. Além disso, riscos reputacionais podem surgir de apagões prolongados ou respostas inadequadas.
Agronegócio: O setor florestal enfrenta perdas imediatas e impactos de longo prazo devido ao tempo necessário para reflorestamento. A qualidade do solo e a disponibilidade de água podem afetar a produtividade agrícola.
Imobiliário e Construção: Danos à propriedade reduzem a disponibilidade de habitação e aumentam a demanda por reconstrução, elevando custos e prazos de projetos de desenvolvimento. Incêndios podem interromper projetos de construção, danificar estruturas e causar atrasos onerosos. Empresas que realizam trabalhos de campo em áreas florestais, como construção ou manutenção, enfrentam riscos de responsabilidade associados a trabalhos com calor, como soldagem e corte. Contratantes de gestão de vegetação que removem mecanicamente vegetação perto de infraestruturas também estão expostos, pois falhas na remoção adequada podem resultar em contato acidental com linhas de energia e desencadear incêndios.
Logística e Transporte: Incêndios florestais podem danificar redes de transporte, como estradas, pontes e linhas ferroviárias, causando atrasos e redirecionamento de bens e serviços. Linhas ferroviárias em áreas rurais e periféricas enfrentam exposições de responsabilidade.
Varejo e bens de consumo: Empresas em áreas afetadas podem sofrer com redução de tráfego de clientes, interrupções na cadeia de suprimentos e danos diretos a instalações e inventário.
Diagnóstico e prevenção: medidas prioritárias
a) Criação de Zonas Defensivas (Defensible Space)
Dividir o terreno em zonas de proteção concêntricas ao redor das estruturas, com diferentes níveis de controle de vegetação e barreiras físicas:
● Zona 1 (0–1,5 m): espaço livre de qualquer material combustível.
● Zona 2 (1,5–9 m): gramados baixos, arbustos espaçados, ausência de copas interligadas.
● Zona 3 (9–30 m ou até 60 m): limpeza de vegetação morta, poda estratégica e uso de barreiras naturais. Recomenda-se consultar engenheiros florestais ou especialistas em recursos naturais.
b) Redução de combustível vegetal
● Implementar um Plano de Manejo de Vegetação (PMV)
● Remoção de detritos, galhos, folhas secas
● Escolha de espécies vegetais com alta retenção de umidade e baixo teor de resina
● Utilização de rochas, cascalho e barreiras corta-vento
c) Proteção de estruturas e equipamentos
● Telhados: coberturas Classe A (ASTM E108 ou UL 790), limpos e livres de resíduos
● Instalações elétricas: blindagem de painéis, sensores de temperatura e inspeção preventiva
● Armazenagem: reposicionamento de tanques de combustível e contêineres inflamáveis
● Calhas, janelas e dutos: uso de telas metálicas de 1/8 de polegada
d) Supressão e controle de incêndio
● Instalação de hidrantes, canhões de água e aspersores externos
● Tanques d’água cheios e isolados de vegetação
● Equipamentos portáteis (extintores certificados, EPIs) sempre inspecionados
● Parcerias com brigadas locais e capacitação de colaboradores
Gestão estratégica e continuidade de negócios
Plano de resposta e evacuação: Definição de rotas, pontos de encontro e responsáveis; simulações periódicas com todos os funcionários; checklist por setor e unidade operacional; backup remoto de dados e sistemas críticos.
Monitoramento e inteligência climática
● Acompanhamento de alertas via INPE, Defesa Civil e SMN
● Uso de sensores térmicos, câmeras de calor e imagens de satélite
● Avaliação anual de risco (com base em mapas de focos e históricos locais)
Plano de continuidade de negócios (BCP)
● Cenários de risco climático incorporados ao planejamento
● Priorização de ativos críticos e alternativas operacionais
● Comunicação de crise com stakeholders e imprensa